Segunda-feira, Abril 7, 2008

O GTOC mudou de endereço!

PEDIMOS DESCULPAS AOS POTENCIAIS LEITORES DO NOSSO BLOG…MAS MUDAMOS DE ENDEREÇO. AGORA PODEM ENCONTRAR NOTICIAS NOSSAS NO BLOG SEGUINTE:

http://coop-mandacaru.blogspot.com/

OBRIGADO PELA COMPREENSÃO!

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Terça-feira, Junho 6, 2006

Teatro do Oprimido também na Lousã

O Teatro do Oprimido está a crescer na Lousã… as sementes estão plantadas e só pedem para crescer…

Laughing No âmbito do projecto Escolhas - O teu centro jovem: tu vales mais que a roupa que tu vestes! - nas Gândaras   existe, desde Novembro de 2005, um grupo de teatro composto por 5 raparigas entre 16 e 19 anos, todas residentes na região da Lousã. O nome do grupo é “JKLJT White”, inspirado nas iniciais de todas as actrizes.

A peça ”Dáááááá…. Século XXI!” conta a história de uma jovem que entra em conflito com os pais, porque ela tem preservativos na carteira e namora um rapaz às escondidas. Conflito de geração ou irresponsabilidade dos adultos?

Já apresentaram a peça em Pampilhosa da Serra e vão seguir para Coimbra e Lousã!

Laughing Também na Escola Básica, o teatro começou. Ao pedido do Conselho directivo, o GTOC está a dinamizar umas oficinas semanais para um grupo de alunos ditos “problemáticos” ou melhor “que dão luta” para parafrasear a Presidente do Conselho Directivo. O objectivo é canalizar as energias e levantar perguntas e polémicas com a apresentação de uma peça entre os dias 19 e 23 de Junho.

Os jovens têm voz própria e são também parte da soluçãoWink

 

 

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Domingo, Março 12, 2006

O Teatro do Oprimido como instrumento de Educação para os Direitos Humanos no seio de três “focos de exclusão” na cidade de Coimbra

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Breve balanço de uma experiência entre Janeiro e Dezembro de 2005 

Este projecto financiado pela European Youth Foundation – Conselho da Europa

Alguns resultados…

Para a Cooperativa Mandacaru: Foi até agora o melhor “cartão de visita” para a nossa jovem cooperativa e apresentou a face visível do nosso trabalho. Ajudou a nossa organização em sair da sombra e do silêncio, e deu-nos mais credibilidade e legitimidade frente aos nossos parceiros. Permitiu também a alguns membros do grupo de participar em formações específicas sobre temáticas diversas tais como técnicas teatrais, inclusão social pelas artes, Direitos Humanos em meio prisional no objectivo de melhorar a qualidade da nossa intervenção. Além disso, a dimensão do projecto levou a nossa cooperativa em alugar um espaço que é ponto de encontro, sala de trabalho e reuniões, oficina criativa, lugar de colecta de material… O local resuma-se a uma sala, uma casa de banho e duas janelas abertas sobre o mundo…

Para o Estabelecimento Prisional de Coimbra: A nossa acção teatral no seio do EPC já tem dois anos. De peças em peças, o núcleo duro de participantes é de mais ou menos 5 homens ( com uma idade média de 30 anos) que quase nunca faltaram a nenhuma sessão e que recrutam e incluem novos membros regularmente. No total, mais de 30 homens passaram pelas oficinas. O grupo “Nós, segunda chance” progrediu muito, a nível teatral, a nível individual e em relação com o resto do grupo. Com mais auto-estima e mais confiança nas suas capacidades, a maioria dos participantes por exemplo, já não recusa em dar entrevistas na televisão sem se esconder, o número de convidados (família, amigos…) aumentou sensivelmente nas últimas sessões públicas e o grupo aceitou o desafio de apresentar a última criação para o público de reclusos em geral. Além disso, é de notar que a actividade teatral motivou a criação de outras actividades artísticas, tais como oficinas de fotografia, de pintura, de marionetas, espantalhos, contos… O espaço - teatro transformou-se realmente em espaço de discussão, de fórum, de comunicação entre reclusos, entre reclusos/instituição, entre reclusos/instituição/sociedade civil. Muitos temas foram abordados ao longo das oficinas, desde a utilização arbitrária do poder, o suicídio, a solidão, as entraves da burocracia, a re- inserção social… Apesar da motivação e da disciplina em alto e baixo, sentimos o grupo mais forte, mais seguro e também mais exigente sobre o conteúdos das oficinas e sobre a participação do público durante as representações das peças. 

Para o Projecto Trampolim / Bairros do Planalto / Comunidade Juvenil São Francisco de Assis: O público alvo era os jovens adolescentes residentes nos bairros sociais e numa instituição de acolhimento, ambos à periferia de Coimbra. Foi realizado em parceria com o Projecto Trampolim – projecto de intervenção sócio-comunitário de dois anos constituído por um consórcio de várias organizações presentes no terreno (Câmara de Coimbra, Cáritas, Agrupamento de Escolas, CEARTE, Inovinter) – com a ajuda da equipa de animadores. Os jovens em geral e os jovens de meios desfavorecidos especialmente têm pouca oportunidade de expressar os seus problemas, as suas vidas, os seus sonhos, os seus talentos. Não têm esta oportunidade, nem o hábito de o fazer. Conseguiu-se cativar um grupo de mais ou menos 8/10 jovens, entre os 13 e 16 anos, rapazes e raparigas. Com a ajuda do teatro, começaram pouco a pouco a falar de eles próprios, a ouvir os outros e a confrontar-se ao público, o que significava assumir as suas ideias e opiniões. A primeira peça tratava do tema da imigração (um imigrante ucraniano chega a Portugal, procura emprego e casa e confronta-se com a discriminação e a injustiça…). Apesar dos jovens terem escolhido o tema da peça, sabíamos que era uma reacção de timidez, a forma pudica de não falar dos verdadeiros problemas que lhes tocavam directamente. E sempre mais fácil falar dos problemas dos outros… Para a segunda peça, os jovens decidiram abordar o tema do tráfico e consumo de drogas, pondo no palco um jovem que quer estudar mas não consegue porque tem pais toxicodependentes. Começaram desde então a falar deles próprios com bastante sinceridade e coragem e outras temas (racismo contra os ciganos, relação rapazes/raparigas…) e outras vontades surgiram. Os comportamentos inerentes a este tipo de público (falta de disciplina, pouco hábito de trabalho e concentração, pouca auto estima, motivação irregular…) fazem que os resultados não são ainda à altura da capacidade criativa, da sede de falar e de denunciar e da energia desses jovens. Mas por experiência, sabemos também que é a longo prazo que o impacto será mais palpável. Os processos reais de mudança não são lineares e inscrevem-se no tempo. E uma questão de confiança e paciência.

Para o Centro de re- educação para menores dos Olivais: O projecto de oferecer uma actividade teatral ao grupo de jovens da Unidade 4 – regime fechado – nasceu de um encontro com uma associação de voluntariado em meios desfavorecidos (apoio jurídico, moral e organização de actividades de lazer), a Alma Mater, presente na instituição há mais de 3 anos. Além de alguns jogos e improvisos, a actividade teatral nunca funcionou propriamente dito porque ainda não conseguimos ter as condições mínimas requeridas para tal. Mas a nossa paciência (e teimosia!) não foram em vão e pouco a pouco conseguimos ganhar a confiança dos jovens e da instituição a través de outros tipos de actividades (percussão, artes circenses, fotografias, dança, expressão corporal…). O espaço de tempo semanal que tivemos juntos desses jovens serviu para desabafar, lançar temas de discussão, entrar em polémicas, rir, chorar, reflectir, informar-se, trocar músicas, dançar… Conseguiu ser um espaço informal que tentou fazer uma ligação directa com o exterior fora do quadro institucional e dos limites impostos pela condição de recluso. Conseguimos por fim abordar de uma forma mais sistemática e organizada temáticas ligadas aos Direitos Humanos com três oficinas no âmbito do Dia Internacional dos Direitos Humanos – 10 de Dezembro - e com uma participação notável (jogos, performance, artes circenses) na festa de natal que reúne jovens, famílias e pessoal técnico.

Conclusão : Do nosso ponto de vista, e depois de um ano de experiência no terreno, utilizar as técnicas do Teatro do Oprimido nestes três lugares específicos de Coimbra revelou-se pertinente e bastante inovador. Porém, este tipo de teatro tem que ser utilizado com muita inteligência, paciência, profissionalismo, uma certa humildade, e sempre em estreita relação e comunicação e negociação permanentes com as instituições envolvidas. Por fim, só podem ser válidas numa perspectiva de (muito) longo prazo, para que não seja mero “show off” ou simples divertimento, mas sim uma real intervenção acompanhada e sustentada…

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Sábado, Março 11, 2006

Olhares de fora para dentro

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SEMINÁRIO NACIONAL - 8 E 9 DE MARÇO DE 2006 EDUCAR O OUTRO

As questões do género, dos direitos e da educação nas prisões portuguesas

Organizado pela HUMANA GLOBAL

GTOC - (GRUPO DE TEATRO DO OPRIMIDO DE COIMBRA) apresenta “O TEATRO DO OPRIMIDO COMO MEIO DE DIÁLOGO NA PRISÃO - Luísa Conceição

“Para mim, a melhor forma de apresentar o projecto seria ouvindo os actores do grupo “Nós, segunda chance” …mas a condição de reclusos implica que sejam privados da sua liberdade de mobilidade… Por isso, apesar de não me sentir muito à vontade para falar em público, serei hoje a porta voz.

O meu encontro com o TEATRO DO OPRIMIDO Foi numa viagem que fiz ao Brasil, mais propriamente ao Rio de Janeiro, que pela primeira vez contactei ao vivo com o TO. Mas foi em Junho de 2003, que o TO iria mudar a minha vida, foi no âmbito do Fórum Social Português que na cidade de Coimbra se realizou uma oficina de três dias, de TEATRO DO OPRIMIDO, onde estiveram presentes dois curingas do CTO RIO (Centro de Teatro do Oprimido do Rio de Janeiro.) Estas oficinas eram dirigidas essencialmente a trabalhadores sociais e activistas da sociedade civil portuguesa… Depois da oficina, tive vontade de colocar em prática as técnicas aprendidas mas sem saber como e com quem iniciar e concretizar a minha ideia…. Foi então que me surgiu um convite do EPC (Estabelecimento Prisional de Coimbra), mais propriamente de uma técnica que trabalha directamente com a população reclusa, para fazer uma oficina de TEATRO DO OPRIMIDO dirigida a esta população.

Os primeiros passos… O desafio era grande e assustador…mas não disse que não…aquilo que mais queria era trabalhar com as técnicas do TEATRO DO OPRIMIDO. Contactei algumas pessoas que tinham feito a oficina comigo, falei-lhes do convite e da minha vontade e motivação de andar para frente. Formámos então um pequeno grupo de trabalho composto essencialmente por pessoas que não tinham muita experiência em TEATRO DO OPRIMIDO mas que já tinham bastante experiência no trabalho social com públicos desfavorecidos e que eram activas no terreno, junto destes públicos. Começámos a estudar todos os livros de Augusto Boal, a reflectir juntos sobre as metodologias, a “filosofia” e a praticar alguns exercícios… A partir deste momento, o GTOC (Grupo de Teatro do Oprimido de Coimbra) começou a ganhar forma, mas não podia ter existido sem alguns encontros, encontros com pessoas-chave. Os receios, as dúvidas eram muitos, e tínhamos que encontrar um bom ponto de partida. Contactei então um dramaturgo - André Kowalski – que, no momento, estava a trabalhar com os reclusos do EPC (Estabelecimento Prisional de Coimbra), na criação de uma peça de teatro no âmbito da “Coimbra Capital Nacional da Cultura 2003”. André deu-nos força e motivação para arrancar com o projecto, mas sobretudo ajudou-nos a começar a desmistificar a prisão, ao partilhar a sua experiência connosco. Por outro lado, precisávamos de reforçar a nossa formação. Apesar da vontade de trabalhar ser grande, a minha prática no Teatro do Oprimido era nula. O encontro com Gisella Mendoza, originária do Peru, e acabada de chegar de Moçambique, onde trabalhara durante seis meses com o GTO Maputo (Grupo de Teatro do Oprimido de Maputo) permitiu que fizéssemos várias formações intensivas no seio do GTOC (Grupo de Teatro do Oprimido de Coimbra). Desta forma, e dando apoio nas sessões de TEATRO DO OPRIMIDO no EPC (Estabelecimento Prisional de Coimbra), e encarnando a curinga nas primeiras representações de Teatro Fórum, a Gisella foi um dos motores de arranque deste projecto. O terceiro elemento chave foi a Mandacaru – Cooperativa de Intervenção Social e Cultural que nesta altura estava ainda em fase de construção. De facto, apercebi-me que precisava de uma estrutura para poder levar a cabo o projecto de uma forma mais sustentada e numa perspectiva de longa duração. Eu queria que o projecto não fosse meramente individual mas que tivesse uma dimensão colectiva, com uma equipa por trás. O projecto GTOC (Grupo de Teatro do Oprimido de Coimbra) foi bem acolhido pela cooperativa e acabou por ser um dos seus projectos-chave, dando mais credibilidade e visibilidade ao seu trabalho de intervenção social. O quarto elemento essencial foi o próprio EPC (Estabelecimento Prisional de Coimbra) e nomeadamente a Drª Dina - técnica responsável pelas iniciativas culturais dentro deste espaço – sem a qual o projecto não podia de facto ter arrancado e continuado desta forma. Em Janeiro de 2004, calendarizámos o projecto, da forma mais conveniente para nós, para os funcionários e para os reclusos, e tiveram início as oficinas.

A criação do grupo “Nós, segunda chance”… No inicio, a organização da equipe de trabalho foi um pouco confusa, pois havia um certo estigma e medo daquilo que íamos encontrar. Porém, tínhamos a consciência que tinha que ser um projecto para trabalhar a longo prazo, pois só assim se poderiam ver alguns resultados. Sabíamos, por experiência no terreno, que não podemos só “abrir portas”. Preparámo-nos para gerir as consequências do impacto possível do nosso trabalho. Voluntariado neste contexto expecífico e com este público expecífico significava para nós, sentido de responsabilidade de longa duração. Como na equipe havia pessoas com experiência de trabalho social, isso valeu bastante para a organização e métodos de trabalho: delimitou-se que teriam que estar presentes sempre duas pessoas, uma permanentemente - neste caso assumi esse papel - e a outra com uma posição mais rotativa conforme a disponibilidade de cada um. Essa segunda pessoa teria mais o papel de observador e de apoio à curinga principal. Pensámos que seria melhor esta pessoa ser um homem, pois estávamos no meio de uma prisão de homens, e como as questões colocadas eram muitas, a presença de um homem sossegava-nos mais… Mais tarde esta preocupação pelo género dentro da equipa já não nos pareceu tão relevante… o facto de sermos mulheres até foi muitas vezes uma vantagem a nível da construção da confiança e de uma certa intimidade, que ajudou o grupo a “desabafar” mais facilmente e a sentir-se mais confortável em falar de sentimentos e (para utilizar uma expressão dos membros do Nós ..Segunda Chance) e outras “paneleirices”. Fazer a barba, usar um perfume, cuidar da roupa e do aspecto exterior em geral começaram inclusivé a ter outro sentido e outra dimensão quando eram notados pelos membros femininos da nossa equipa… Começámos por trabalhar como num “laboratório”, pois não sabíamos como é que a instituição e os próprios reclusos iriam reagir às técnicas de Teatro do Oprimido, dado que é um teatro que vai ao interior do ser humano. Simbolicamente, o espaço do teatro onde ensaiamos e representamos é uma antiga capela que está no “coração” do edifício da cadeia. Logo de início, tive a consciência de que deveríamos trabalhar em diálogo constante com a instituição, sem nunca entrar em choque, pois no palco iriam ser abordadas questões muito delicadas, que poderiam facilmente levar a alguns conflitos. Não queríamos criar situações explosivas ou incontroláveis, porque o nosso principal objectivo, era abrir um espaço de diálogo, dentro da prisão e também entre a prisão e a sociedade civil. Começámos por trabalhar a confiança do grupo. A melhoria da auto-estima é um factor essencial para o trabalho com este público, já que a instabilidade é uma característica muito presente no seu dia-a-dia. O grupo foi ganhando consistência e aí começámos a trabalhar verdadeiramente as técnicas de Teatro do Oprimido, insistindo no Teatro Imagem para a criação de peças. Para apresentação das peças de teatro, trabalhámos com o Teatro fórum. A pouco e pouco, de exercício em exercício, pequenas histórias foram criadas e o grupo “Nós, segunda Chance” nasceu. A primeira representação pública “Animais”, foi um passo decisivo na vida deste grupo e… do nosso! Ao longo destes dois anos, já passaram pelo grupo de teatro cerca de sessenta reclusos, e houve alguns que resistiram desde o início, e que hoje formam o núcleo duro. A eles são dadas algumas tarefas como ajudar os mais novos no grupo, e hoje são praticamente autónomos: têm, por exemplo, a responsabilidade de alguma gestão do espaço cultural dentro da cadeia, e de todas as actividades mais informais que ali vão decorrendo. É este núcleo duro que recruta novos membros e que assegura a continuidade do trabalho. É neste núcleo duro que queremos agora, apostar para formar futuros curingas. Conseguimos criar quatro peças e três foram apresentadas publicamente várias vezes, para um público de “fora” e de “dentro”. Cada peça abordou temas diferentes tais como a emigração/imigração, a solidão, o suicídio, a reinserção social… No passado dia 16 de Fevereiro, iniciámos uma “digressão” e o grupo apresentou a sua última peça no EPS (Estabelecimento Prisional de Sintra) De salientar que o trabalho também cativou o interesse de alguns meios de comunicação e alguns jornalistas seguiram desde o início o trabalho desenvolvido… Esta projecção mediática não foi sempre pacífica para os participantes do grupo mas a pouco e pouco, com a auto-estima e auto–confiança a melhorar, também souberam “aproveitar” este meio para comunicar e falar sobre si de uma forma positiva e diferente, passando a sentir-se e a ser vistos também como “actores” e não unicamente como “reclusos”.

O(s) medo(s) como principal barreira… Como já disse, tivemos primeiro que ultrapassar os nossos próprios medos para poder começar a trabalhar no EPC (Estabelecimento Prisional de Coimbra)… É a condição de base para dar os primeiros passos, lutar contra os nossos próprios preconceitos e estereótipos sobre a prisão e os prisioneiros. Mais tarde e no decorrer do projecto, tivémos medo de nos tornarmos “parte da opressão” e de não poder ter margem de manobra e liberdade suficiente para continuar a trabalhar. Por isso, tivemos que conquistar a confiança da instituição (direcção, técnicos, guardas…) com paciência, persistência e diplomacia, de forma aberta e transparente, em diálogo constante. E resultou. Começámos por realizar mini-fóruns no seio do próprio grupo, com base nas opressões individuais e colectivas vividas no seio da comunidade prisional. Contudo, depressa nos apercebemos que o Teatro do Oprimido pode ser “perigoso” para, como diria o sociólogo Michel Foucault uma instituição total, uma instituição fechada, onde as hierarquias constituem um autêntico braço de ferro… O recluso tem medo de colocar em palco as suas opressões, e é sempre com muito cuidado que abordamos alguns problemas ali vividos. O medo dos reclusos é uma constante. E daqui surgem conflitos no seio do grupo. Existe o perigo de reproduzir as regras e relações de poder vividas atrás das grades (entre reclusos, entre guardas e reclusos, entre reclusos e outros técnicos…) Tivémos, por vezes, dificuldades na gestão destes conflitos. Tentámos mostrar que o espaço-teatro é um espaço “neutro”, de confiança e de diálogo e não um espaço de jogo de poder e de chantagem… Os medos também existiam do lado da própria instituição já que não é fácil lidar com críticas, denúncias, resistências… E também a instituição teve que ultrapassar os seus próprios medos, muitos inerentes a um sistema pesado e secular. Para isso, agora podemos dizer que este tipo de projecto só é possível se houver uma pessoa de “dentro” que seja da confiança da direcção e que acredite no projecto e possa ser a pessoa referente e de contacto para tudo o que diz respeito à organização e logística deste tipo de actividades. Tivémos a sorte de ter essa pessoa no serviço de psicologia do EPC. Alguém em constante diálogo, que nos deu um apoio incondicional, dado o seu profissionalismo, capacidade de gestão e humanismo. Para além disso, este trabalho requer disponibilidade e abertura por parte da Direcção da prisão pois aborda as questões do Poder. No TO, são apresentadas situações onde o Opressor é – ou pode ser - a própria instituição. Por outro lado, as representações das peças representam um certo desafio à segurança do estabelecimento ao acolherem visitantes e público do exterior. Implicam, por isso, reforço dos guardas prisionais e horas extras para alguns funcionários. Só com disponibilidade e vontade em assumir todos os riscos se pode apoiar este projecto, como o fez a direcção do EPC (Estabelecimento Prisional de Coimbra). Daqui ressalta a necessidade de desenvolver um trabalho sustentado e de longa duração… Deixámos alguns medos para trás mas surgem outros… o esforço é contínuo…

Últimas palavras… Para concluir, constatamos que a prisão não pode ser vista como algo “à parte”: ela também compõe a sociedade. Para que as condições nas prisões mudem, a sociedade tem que mudar. A prisão é apenas uma pequena peça, um microcosmos que não pode ser posta em questão sózinha, fora de um contexto mais global. Por isso também, não podemos deixar a cargo de uma instituição a responsabilidade de colmatar as falhas todas de uma sociedade… Seria injusto e irrealista. Utilizar as técnicas de TO neste contexto específico parece-nos pertinente e inovador. Lembramos, contudo, que aqui, talvez mais do que em todos os contextos, o TO não pode ser utilizado como uma espécie de “show off” ou actividade “gira”, na moda, mas usado como ferramenta de trabalho com muito profissionalismo, humildade, conteúdo e transparência, numa perspectiva horizontal a todos os níveis e sempre numa óptica de longo prazo.

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Sexta-feira, Fevereiro 17, 2006

Teatro do Oprimido na Prisão de Sintra

O Grupo de Teatro do Oprimido NOS SEGUNDA CHANCE do Estabelecimento prisional de Coimbra, sob a Orientação do Grupo de Teatro do Oprimido de Coimbra, esteve presente no Estabelecimento Prisional de Sintra Com a Peça “A TARTARUGA QUE CHEGOU PERTO DO MAR”…

Procedeu-se a mais uma sessão de teatro fórum… o publico presente, alguns reclusos, técnicos do estabelecimento assim como guardas prisionais, assistiram à peça, onde foram apresentadas algumas propostas alternativas, aos problemas que lhe colocamos…

A peça retrata os entraves que os reclusos encontram depois de sairem da prisão…todas as barreiras com que se deparam e as dificuldades que enfrentam… A recepção foi muito boa…até houve algum interesse por parte das entidades de fazer oficinas de Teatro do Oprimido com a Comunidade reclusa do EPS…

Grupo de Teatro do Oprimido de Coimbra

Directora: Luisa Conceição

Contactos: gtocoimbra@sapo.pt

Telem: (351) 918434453

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Terça-feira, Dezembro 13, 2005

A minha experiencia de teatro forum na prisão

Gostava de poder escrever um texto lindissimo sobre o TO, mas isso nao vou fazer, pois toda a teoria do TO jà foi escrita, vou antes escrever sobre uma experiência vivida ao longo de dois anos no Estabelecimento Prisional de Coimbra… Porque o TO para mim è fundamental na pràtica… Foi no inicio de 2004, que iniciei uma oficina de TO no EPC de Coimbra, dirigida essencialmente à populaçao reclusa masculina… No inicio entrei com muito receio, e quando me vi no meio daqueles homens quase crianças, fiquei desarticulada sem saber muito bem o que fazer… Só tinha uma certeza, queria fazer Teatro do Oprimido… A minha prática era zero, mas a vontade era muito grande…pedi ajuda e foi-me dada por uma Associaçao local (Mandacaru) que ainda estava em fase de construçao, foi graças à força e ajuda de alguns membros, que o projecto começou a ganhar pernas… Numa primeira fase foi fundamental estabeleçer uma relaçao de confiança com o grupo, e trabalhamos com tècnicas e exercicios para poder reforçar essa parte, a partir daqui trabalhamos a auto-estima, pois nao podemos esqueçer que estamos perante uma populaçao onde o olhar para si próprio e feito numa abordagem muito fogaz, diria quase cega… O grupo foi ganhando consistencia… e é aqui que começamos a trabalhar verdadeiramente com as tècnicas do Teatro do Oprimido…insistindo No Teatro Imagem para a criaçao de Peças e trabalhando essencialmente com o Teatro Fórum a mais adequada para apresentar as peças de teatro… Começamos por fazer mini-foruns no seio do pròprio grupo para este ter a noçao verdadeira do que è um fòrum…Partimos para as opressoes individuais e colectivas vividas no seio da comunidade prisional. Mas depressa nos apercebemos que o TO è demasiado politico e perigoso para um sistema tao fechado como é o meio prisional… O próprio recluso tem medo de colocar em palco as suas opressoes vividas no meio… É com muito cuidado que abordamos alguns problemas ali vividos, pois o medo è muito grande e està sempre patente nas sessoes de TO…Mas como nao queremos mudar tudo de uma vez, vamos trabalhando sempre em dialogo com a instituiçao… Mas garanto-vos nao è facil trabalhar com o TO no meio prisional…Mas com o tempo a instituiçao foi conheçendo o nosso trabalho e vendo o quanto è benèfico para a comunidade reclusa… Ao fim deste tempo jà conseguimos abordar de uma forma estética, analitica e sobretudo de diàlogo, a degradaçao dos espaços prisionais e todas as condiçoes envolventes…O suicidio no meio prisional…e por ultimo a reinserçao social…porque è que ela falha… Neste momento o EPC tem vindo a convidar publico escolar nomeadamente alunos do ensino secundàrio e universitário para poderem assistir às peças no interior do EPC, para assim tentar sensibilizar a sociedade a entrar no meio prisional e tentar criar a ponte que è tao necessaria e urgente… O grupo jà ganhou uma forte consistencia e atè jà arranjou um nome “Grupo de Teatro do Oprimido Nós..Segunda Chance” Alguns dos elementos jà sairam em liberdade, mas o grupo està sempre aberto a novos elementos…Nota-se um crescimento individual e colectivo, sobretudo na forma de abordagem dos problemas ali vividos…Uma maior confiança em si, e uma nova forma de estar e de dialogar com o outro… A experiencia é riquissima, ouve-se històrias que fariam a delicia de qualquer escritor…É um condensado e aglomerado de vivencias, olhares saberes, imaginários que sò neste meio se consegue encontrar… Gostava de poder ter mais tempo para poder ouvir tudo, ou de saber ouvir melhor, pois muitas vezes o trabalho rouba-nos o ouvido…para este universo vivido quase que num imaginàrio fantástico desconhecido… A riqueza humana que aqui se adquire nao tem preço…pois os conflitos vividos diariamente, obrigam-nos a uma ginàstica mental muito grande, e um olhar sempre atento sobre as situaçoes.. Sao muitos os momentos em que se coloca tudo em causa, mas a experiencia e a riqueza humana que se vive, dao-nos a força e o alento para continuar… porque de certa forma jà conseguimos humanizar um espaço num meio onde o diàlogo se torna tao dificil, essa è a primeira vitòria: criou-se um espaço para o teatro…outras vitòrias virao…Para isso è preciso muito trabalho e dedicaçao, insistencia..porque de escrita estamos nòs fartos, reflexoes è fácil fazer…Estar no terreno diariamente è duro, mas de uma riqueza indescritevel, sò possivel para quem tiver a coragem de permanecer, insistir, criar, dialogar, partilhar, para depois multiplicar.. É esta a minha experiencia vivida com o TO na prisao… Espero poder continuar a partilhar e chamar as pessoas para poderem partilhar um pouco desta experiencia, e aos poucos podermos mudar a realidade das nossas prisoes, ou melhor de quem as lidera…

Luísa Conceição

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Terça-feira, Dezembro 6, 2005

Teatro Forum na prisão para as escolas

Ontem dia 5 de Dezembro de 2005, decorreu mais uma peça de teatro Fórum no Estabelecimento Prisional de Coimbra… A Peça apresentada foi “A Tartaruga que chegou perto do Mar”. Foi bem acolhida pelo público… A discussao foi forte… O público na maioria jovem proveniente de uma escola de Formaçao Profissional do Porto aderiu bem a este tipo de teatro e apresentou-nos muitas propostas diferentes para tentar resolver as opressoes que foram colocadas em palco…

Querem voltar para a próxima e ficaram entusiasmados com este tipo de trabalho e querem saber mais… Para os actores, foi bastante positivo, pois viram o seu trabalho ser reconhecido, e isso dá-lhes uma força enorme para poder continuar a trabalhar…. Trabalhar atrás das grades nao é fàcil e por vezes dá vontade de desistir… Mas o grupo vai-se tornando forte e com o publico que vem de fora, a força aumenta…

É um trabalho para continuar…

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Terça-feira, Novembro 29, 2005

A Tartaruga que chegou perto do mar

A TARTARUGA QUE CHEGOU PERTO DO MAR…e a nova peca de teatro forum que o Grupo de Teatro do Oprimido “Nos Segunda Chance” do Estabelecimento Prisional de Coimbra leva ao palco, nos dias 5 e 6 de Dezembro de 2005

No dia 5 pelas 19horas destina-se essencialmente a um publico escolar, no dia 6 destina-se ao publico em geral…

Esta é a quarta peca de teatro apresentada por este grupo e é o resultado de um oficina de teatro do oprimido que esta a decorrer desde janeiro de 2004, sob orientacao de Luisa Conceicao do Grupo de Teatro do Oprimido de Coimbra…

Esta peca retrata a vida de um recluso que e colocado em liberdade…e de todas as dificuldades que vai encontrar pelo caminho. São muitos os conflitos que nao consegue resolver… o que vai ser desta pessoa…

Convidamos as pessoas para que nos ajude a resolver este conflito… Venha dai, nao fique no sofa, pois vai ficar com a coluna torta e cabeca pesada…

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